quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Detrás

Desci a escadaria do Palácio da Rua do Século num passo de pianista, gozando cada degrau ao som de um compasso lento. Mentira, não desci, fui descendo. Fui gozando, fui sentindo o cheiro húmido das paredes. Sorvi as sombras e a sua face de recolhimento. Senti em mim um espaço aberto à solidão e sorri. Ali estava uma escadaria perdida, orfã de vida, remendada, e do outro lado do silêncio, ao fundo do último degrau, uma luz radiante convidava de novo ao andar. Despedi-me. Olhei em frente e trespassei a porta. Por detrá de algo há sempre algo, haverá pois melhor prova de eternidade?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Ama

"Se queres fazer da tua vida um elo de eternidade e manteres-te lúcido até no meio do delírio, ama... Ama com todas as tuas forças, ama como se não soubesses fazer mais nada, ama até causares inveja a príncipes e deuses... porque é no amor que qualquer fealdade ostenta uma beleza própria..."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A dúvida

Se existir fosse uma vontade tão própria como o pensamento, quantos de nós existiríamos?

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O que o dia deve à noite

"...O homem não é mais do que inépcia e equívoco, erro de cálculo e falsa manobra, temeridade inconsiderada e objecto de fracasso quando crê avançar rumo ao seu destino, desqualificando a mulher... É certo que a mulher não é tudo, mas tudo assenta nela... Olha à tua volta, consulta a História, olha demoradamente para o mundo inteiro e diz-me o que são os homens sem as mulheres, o que são os seus votos e preces quando não as louvam... Rico como Creso ou tão pobre como Job, oprimido ou tirano, nenhum horizonte bastaria para a nossa visibilidade se a mulher nos virasse as costas... se uma mulher te amar, se te amar profundamente, e tu tiveres a presença de espírito para avaliar a extensão desse privilégio, nenhuma divindade te chegará aos calcanhares..."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Grey

Chegou... este cinza invernoso, soturno, que inunda e afoga os sorrisos com lágrimas de solidão.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Só

Julho de 2004... o mundo dos meus concidadãos vivos continha as notícias de sempre, a guerra mantinha-se, como sempre, dividida entre o trânsito da minha cidade e os morteiros que caíam algures numa terra de gente desconhecida, como sempre; a paz, também ela, semeava-se diante dos olhos dos mais misericordiosos, como sempre, voando num beijo sentido de uma mãe, nas mãos enroladas dos esperançosos namorados, no desdentado sorriso de uma senhora a quem a idade lhe retirara amavelmente a razão... como sempre! E nesta cascata neutra de acontecimentos esquecemo-nos que cada dia tem nas suas histórias de sempre capítulos que arrebatam almas. Aconteceu-me em Julho de 2004, quando uma luz negra avançou desmesuradamente sobre mim, trazendo uma solidão tão arrebatadora como a seiva de um rasgo de amor. Desejei ser o mais vergonhoso dos vermes, desejei ser uma nota de música que se esfuma, desejei não ter de sentir aquele mastigar penoso. Mas tal como num livro, todos os capítulos têm um fim, e como é libertador descobrir que no fio vibrante da minha vida o cunho da próxima e da última letra terá sempre presente a mão firme da minha autoria.