quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Julho de 2004... o mundo dos meus concidadãos vivos continha as notícias de sempre, a guerra mantinha-se, como sempre, dividida entre o trânsito da minha cidade e os morteiros que caíam algures numa terra de gente desconhecida, como sempre; a paz, também ela, semeava-se diante dos olhos dos mais misericordiosos, como sempre, voando num beijo sentido de uma mãe, nas mãos enroladas dos esperançosos namorados, no desdentado sorriso de uma senhora a quem a idade lhe retirara amavelmente a razão... como sempre! E nesta cascata neutra de acontecimentos esquecemo-nos que cada dia tem nas suas histórias de sempre capítulos que arrebatam almas. Aconteceu-me em Julho de 2004, quando uma luz negra avançou desmesuradamente sobre mim, trazendo uma solidão tão arrebatadora como a seiva de um rasgo de amor. Desejei ser o mais vergonhoso dos vermes, desejei ser uma nota de música que se esfuma, desejei não ter de sentir aquele mastigar penoso. Mas tal como num livro, todos os capítulos têm um fim, e como é libertador descobrir que no fio vibrante da minha vida o cunho da próxima e da última letra terá sempre presente a mão firme da minha autoria.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Stop

Stop! Os segundos desciam por ali fora, cruzando o presente com um momento passado. No ar pardacento e enublado choviam os pedidos, moviam-se as bandejas, por debaixo delas os pés que roçavam um chão gasto ao som do compasso... tic tac, tic tac... uma dança, um tango com cafeína e aquela gente imune, imune ao tempo, imune ao som do compasso, imune à dança, imune ao meu olhar que sobrevoava as suas vidas anónimas. Stop! E lá estavam eles, revirados, costas com costas, numa ausência que sendo tão presente não se entende como passa desapercebida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Milky Way

A manhã desperta... e nem dou conta, um estrondo ecoa no silêncio do sono profundo e os olhos regressam. Há uma explicação mas desconheço-a! Adormeci por debaixo de uma cortina, como o faço sistematicamente, sem ter direito à minha vontade. Caio para o lado e desapareço em sonhos que não encomendei. É de manhã e tudo volta a acontecer. Uns pingos de leite abatem-se sobre um lago silêncioso e provocam um marmoto. Nem me apercebo. Dentro do meu micro cosmos contínuo a acreditar que mundo é apenas a realidade do meu olhar.

sábado, 5 de setembro de 2009

Hoje

Ainda ontem olhava em volta, rodopiava a cabeça e o cérebro seguia-me desencontrado da realidade do meu sentir, como se uma prisão acompanhasse cada passo do meu viver, como se cada passo fugisse do passo seguinte, como se a existência fosse um conjunto de capítulos improvisados. E ainda ontem, enquanto olhava em volta e rodopiava a cabeça e o cérebro seguia-me desencontrado da realidade do meu sentir, fiz as contas aos demónios que me acompanhavam e imaginei para cada um deles uma cara de anjo. E assim ontem passou a ser ontem, perdeu-se no vazio da sua solidão, morreu ali, esmagado num rasto de aromas e flores que me chegaram de improviso do deserto, sem dar conta que ali estava o teu ser.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Still night, still light

Às vezes as luzes apagam-se e a vida desprende-se da pele sem cortesia. Fecha-se o capítulo de uma história inacabada que um momento atrás parecia verter sem fim. Os Homens também murcham, e as flores, que antes nos contemplavam, assombrosamente viçosas, também tombam. Demasiadas vezes! E quando a noite assalta o espírito... o ar torna-se pesado e entranha-se, revolve-nos e desejamos ficar por ali, perdidos no vazio de uma penumbra onde se esconde o ego malicioso. Para muitos é o fim da história. Falta-lhes a coragem de reconhecer a imperfeição da vida e por ela desejar viver, sem ajuste de contas, sem remorsos, sem um olhar vazio, sem vingança, sem o ego ferido, esse mesmo, que antes nos trazia num colo doce e nos abandona assim num sujo e frio vão de escada. Mas para os amorosos existe sempre uma luz que não se extingue, um acreditar que se ri das "verdades", uma vontade de sonhar que trespassa o momento... para eles existe o possível e o impossível. Só assim se pode verdadeiramente amar!

Dedico este post à Rita, à sua vida, ao seu exemplo, ao seu amor genuino e à coragem de saber viver e lutar sem nunca desistir ou virar a cara... still night, still light!

sábado, 1 de agosto de 2009

Bloody Mary

Aproxima-te!
Abraça-me no silêncio despojado de vestes,
Delicia-te nas gotas do meu amargo sangue,
Pequeno voraz.
Não digas nada,
Adoro-te no meu desejo e no entanto…
Esmagar-te-ia com tantas delicadezas e absurdas alucinações,
Pequeno voraz.
Sente!
Transpira no meu sangue quente,
Acolhe-o,
Sim, saboreia-o,
Pequeno voraz.
Ergue-te nestes momentos de viagem e depois…
Corre,
Foge desabrido e leva as memórias,
Limpa-te e guarda em ti esse sangue meu.


sexta-feira, 24 de julho de 2009

A risco

Por vezes fixo-me numa palavra e deixo-me levar. Por vezes fixo-me numa pessoa e deixo-me ficar. O meu estado de espírito é mutável, oscila como o meu corpo, serpenteia como a vida. Aborrece-me não ter todas as respostas, aborrece-me o vazio quando este surge e se retém no horizonte. Mas é assim. Um cruzamento nunca é um fim mas antes o princípio de algo. O que me agrada é suportar os medos que se acercam e agarrar na revolta que se apodera do espírito e pensar que o maior risco é desistir.